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Os heróis das vespas ~ Conto

Desde cedo que viemos viver para este lindo lar, temos coexistido pacificamente com as vespas que vêm fazer ninho no nosso jardim, da parte detrás da casa onde passamos mais tempo, com as nossas companheiras felinas. Têm havido ninhos de vespas na parte da frente da casa onde vivem as nossas companheiras caninas, mas passamos menos tempo aí, sem poder observar.

Recentemente, fui fortemente ferrada por uma vespa no pulso e foram longos minutos agonizantes em que a dor não diminuía, apenas se transformava. De respeito, percebi a minha posição perante elas passar a medo. Receio também pelas felinas, que são bem destemidas.

Decidimos que assim que nasça a próxima geração de vespas, removemos o ninho, até porque tendencialmente elas abandonam os ninhos. O meu desejo que as crias nasçam tem sido muito presente ainda que sereno, apesar de elas terem investido em mim várias vezes quando rego as plantas e estou mais próxima. É formidável a devoção delas aos ovos, são incansáveis. Sempre fica uma de vigia quando as outras dormem.

Esta manhã fomos surpreendidos pelo ninho infestado de formigas. As vespas circundavam em voo o ninho, com atentados de auxiliar os ovos. Senti~as verdadeiramente desoladas, perdidas, sem puder cuidar. Ficámos momentaneamente sem saber o que fazer. Tantas vezes em situações que nos apelam ao coração, decidimos permitir a natureza tomar o seu curso, mas diante dos nossos olhos optamos por afastar as formigas com borrifos de água. Mesmo correndo o risco de matar tantas formigas, com um aperto no peito, na tentativa de parar o que para nós sentimos ser uma injustiça para com as vespas. Talvez por arrogância nossa, mas sem saber ao certo o que seria o melhor caminho.

As vespas que seriam 20 ontem, regressavam em menor número, tentando salvaguardar ainda os ovos. Outras, nitidamente prostradas, não sei porquê.

Aqui as observo, reflectindo no poder da intenção. Reflectindo sobre a crueldade em conceito humano, que testemunhamos no mundo natural, aqui tão presente, duas espécies tão trabalhadoras e dedicadas, a tentar sobreviver num mundo que o homem tende a destruir.

Correndo o risco de parecer arrogante aqui me encontro a relatar e a apelar que sejamos coerentes na nossa intenção. Enquanto para mim era evidente que queria o ninho removido pacificamente somente depois de todas as vespinhas terem nascido, a minha “ânsia” viu a questão quase resolvida esta manhã, antes do seu tempo, mesmo que tenha sido apenas uma coincidência.

O meu amor estende~se a todas as criaturas. A minha tristeza é por todos os que padecem de injustiça. Mesmo que somente aos olhos do meu coração.

As formigas por sua vez, movem~se livremente no nosso lar por mais inoportunas que sejam.

Infelizmente e apesar dos nossos esforços, as formigas de novo tomaram posse e removemos o ninho. Um final triste para mim, mas no grande espectro da vida, quem sabe?



Temos o costume de dizer “Eu no teu lugar…” ou “Se fosse eu…” e falar do que não sabemos. Mas eu tenho aprendido que só atravessamos as pontes quando chegamos até elas.

É pouco provável sabermos o que faríamos quando não estamos a viver a situação e a emoção da experiência. Penso ser importante ter esta verdade em conta quando pensamos poder aconselhar alguém imaginando o que seria para nós. Tantas vezes dizemos também “nunca imaginei ter esta reacção…” ou “nunca pensei ser capaz de fazer ou dizer o que fiz ou disse”.


Vão~nos surgindo oportunidades de reflexão que podem promover o nosso crescimento individual e colectivo. Precisamos contudo estar atentos. Hoje tentamos ser os Heróis das vespas mas não conseguimos. E no entanto fomos sem querer, os carrascos de muitas formigas…

Triste desfecho mas muita humilde aprendizagem.


Post scriptum ~ Porque continuamos a ver as vespas no local onde estava o ninho, o Pedro resgatou o ninho das formigas sem lhes provocar dano e colocou~o de volta. As vespas regressaram e lá continuam. Não sei se haverá um melhor ou mais feliz desfecho ou um “to be continued”… teremos que aguardar.

~~ Ana ~~


Ninho resgatado

Rescued Nest


The Wasp Heroes

Since we came to live in this beautiful home, we have coexisted peacefully with the wasps that come to nest in our garden, at the back of the house where we spend more time with our feline companions. There have been wasp nests in front of the house where our canine companions live, but we spend less time there, not being able to observe.

Recently, I was badly stung by a wasp on the wrist and it was long agonizing minutes where the pain didn't lessen, it just transformed. Out of respect, I realized my position towards them had changed to fear. I also fear for the felines, which are quite fearless.

We decided that as soon as the next generation of wasps is born, we will remove the nest, as they tend to abandon the nests. My desire for the babies to be born has been very present even if serene, despite the fact that the wasps have invested in me several times when I water the plants and I am closer. Their devotion to their eggs is formidable, they are tireless. One always keeps watch when the others sleep.

This morning we were surprised with the nest infested with ants. The wasps circled the nest in flight, trying to help the eggs. I felt them truly desolate, lost, unable to care. For a moment we did not know what to do. So many times in situations that appeal to our heart, we decide to allow nature to take its course, but here, before our eyes we chose to drive away the ants with water spray. At the risk of killing so many ants, with a tightness in the chest, in an attempt to stop what we feel is an injustice to the wasps. Perhaps because of our arrogance, but without knowing for sure what would be the best way.

The wasps that would have been 20 yesterday, returned in smaller numbers, still trying to safeguard the eggs. Others, clearly prostrated, I don't know why.

Here I observe them, reflecting on the power of intention. Reflecting on the cruelty in the human concept, which we witness in the natural world, here so present, two species so hardworking and dedicated, trying to survive in a world that man tends to destroy.

At the risk of appearing arrogant, here I find myself reporting and appealing for us to be coherent in our intention. While it was evident to me that I wanted the nest removed peacefully only after all the wasps had hatched, my "craving" saw the matter almost resolved this morning, ahead of its time, even if it was just a coincidence.

My love extends to all creatures. My sadness is for all who suffer from injustice. Even if only in the eyes of my heart.

The ants, in turn, move freely in our home no matter how inopportune they are.

Unfortunately, despite our best efforts, the ants took over again and we removed the nest. A sad ending for me, but in the great spectrum of life, who knows?

We have the habit of saying “If I was in your place…” or “If it were me…” and talking about what we don't know. But I've learned that we only cross bridges when we get to them.

It is unlikely that we know what we would do when we are not experiencing the situation and the emotion of the experience. I think it's important to keep this truth in mind when we think we can advise someone imagining what it would be like for us. So many times we also say “I never imagined having this reaction…” or “I never thought I would be able to do or say what I did or said”.

Opportunities for reflection arise which can promote our individual and collective growth. However, we need to be attentive. Today we tried to be the wasps' heroes but we couldn't. And yet we were, unintentionally, the executioners of many ants…

Sad outcome but a lot of humble learnings.

Post scriptum ~ Because we continued to see the wasps in the place where the nest was, Pedro rescued the nest from the ants causing them no harm and put it back. The wasps have returned and are still there. I don't know if there will be a better or happier outcome or a “to be continued”… we will have to wait.

~~ Ana ~~





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